Funções executivas

Funções Executivas referem-se às habilidades de alta ordem que utilizamos para controlar e coordenar outras habilidades cognitivas orientadas a metas e problemas. Muitas vezes, as Funções Executivas são também chamadas de "Controle Executivo" ou "Controle Cognitivo" e há um consenso entre os pesquisadores que existem, ao menos, três núcleos nas Funções Executivas (Diamond, 2013):

1- Controle Inibitório
2- Memória de trabalho
3- Flexibilidade cognitiva

As Funções Executivas nos permitem concentrar nossa atenção em informações, planejar e resolver problemas nas mais diferentes situações e, no geral, organizar nossas ideias adequadamente. Pesquisas utilizando avaliações neuropsicológicas e cognitivas indicam que as Funções Executivas estão associadas com áreas frontais do cérebro, surgem nos primeiros 5 anos de vida e continuam a se fortalecer durante toda infância e adolescência (Best & Miller, 2010). 

Sabe-se, hoje, que o desenvolvimento das Funções Executivas está intimamente relacionado tanto com o desenvolvimento cerebral, quanto com aspectos sociais e financeiras. Crianças expostas à pobreza continuadamente, quando mais velhas, apresentam resultados inferiores em testes neuropsicológicos e cognitivos. Isto também ocorre em situações em que há muito estresse (Berthelsen, Hayes, White, & Williams, 2017). 

Desta maneira, é fácil perceber que as Funções Executivas possuem um impacto direto em nossa vida, como podemos ver na tabela abaixo:

 

Controle Inibitório

Esta função envolve a capacidade de controlar a atenção, os pensamentos, sentimentos e comportamentos para frear uma determinada predisposição interna (ou um desejo ou vontade muito intensa) e realizar um comportamento mais adequado. Sem o controle inibitório, seríamos pouco capazes de reagir diferentemente às situações com presença de estímulos agradáveis ou às quais já nos condicionamos a responder de determinada maneira. Basicamente, estaríamos à mercê apenas de nossos impulsos e hábitos antigos. 

Há alguns níveis do controle inibitório. O controle inibitório da atenção nos permite selecionar e focalizar um determinado estímulo em detrimento de outros. O que exemplifica bem essa situação é nossa capacidade de concentração na fala de alguém durante uma festa. Apesar da presença de muita gente falando e da música no ambiente, conseguímos prestar atenção adequadamente na fala de alguém. Isto funciona melhor na ausência de estímulos muito intensos, visuais ou auditivos. Na presença desses estímulos, nosso foco de atenção imediatamente se altera, o que é uma reação também adaptativa. 

Conseguimos também atenuar um pensamento ou representação cognitiva através da inibição cognitiva, o que envolve resistir a pensamentos e memórias desagradáveis. Nem sempre isto é possível, mas conseguir realizar este controle é um processo que está imerso nas Funções Executivas e, em especial, no controle inibitório. 

O controle inibitório também pode envolver o auto-controle, que é a capacidade de controlar nosso comportamento para não agir impulsivamente a possíveis estímulos muito prazerosos (por exemplo, evitar comer doces se você está de dieta) ou a situações desconfortáveis (por exemplo, um acidente de trânsito ou uma situação de conflito social).

 

Memória de trabalho

Esta função envolve a capacidade de manter e utilizar informações em nossa mente. Em outras palavras, a memória de trabalho é a função que nos permite operar com informações que não estão mais presentes no ambiente. Isto pode se referir a informações verbais e não verbais (por exemplo, visuais e espaciais). Entende-se que a memória de trabalho seja crucial para o entendimento daquilo que está sendo dito ou de alguma informação escrita, já que precisamos ordenar e organizar todo o conteúdo de maneira razoável e lógica. Além disso, a memória de trabalho nos permite fazer contas mentalmente, traduzir e entender outros idiomas e realizar um planejamento de como iremos resolver determinado problema.

Há uma ligação intrínseca entre memória de trabalho e criatividade. Ambas nos permitem encontrar padrões diferentes entre diversos estímulos e objetos, bem como nos capacitam a atualizar nossas informações e pensamentos sobre tais objetos. Desta maneira, a memória de trabalho é fundamental para o funcionamento efetivo dos diferentes tipos de controle inibitório, já que ela direciona o que deve ser inibido ou não, reduzindo a probabilidade de erros por impulsividade. 

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 Flexibilidade cognitiva

Esta função aparece mais tardiamente no desenvolvimento. Autores indicam que ela começa a se desenvolver melhor aos 5 anos de idade e vai se consolidando a partir dos 9 anos. A flexibilidade cognitiva é a habilidade que nos permite mudar de perspectiva espacial ou interpessoal. Em relação à perspectiva espacial, ela nos habilita a imaginar um objeto como se estivéssemos em outra posição. Em relação à interpessoal, pode nos levar a nos colocarmos no lugar de outra pessoa, procurando entender pensamentos, sentimentos e comportamentos diferentes dos nossos. Em outras palavras, a flexibilidade cognitiva nos possibilita pensar em dois conceitos ou objetos diferentes de maneira simultânea.

Basicamente, a flexibilidade cognitiva funciona desativando provisoriamente os processos que estão presentes na memória de trabalho para que seja possível, efetivamente, haver uma flexilidade de pensamento e de ação. Além disso, este processo está tão ligado à criatividade, que especialistas ainda não conseguem estabelecer onde começa uma e termina a outra.

Um aspecto muito importante da flexibilidade cognitiva é que ela nos permite eleger prioridades, reconhecer erros cometidos e se aproveitar de situações inesperadas.

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Jogo das Cartas Mágicas

A equipe de Psicologia que integra o Núcleo de Neuropsicologia Clínica e Experimental (NNCE) desenvolveu um aplicativo para auxiliar na avaliação das funções executivas de crianças. Neste site, você poderá baixar gratuitamente o programa. Clique aqui para saber mais.

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Bibliografia

Berthelsen, D., Hayes, N., White, S. L. J., & Williams, K. E. (2017). Executive Function in Adolescence: Associations with Child and Family Risk Factors and Self-Regulation in Early Childhood. Frontiers in Psychology, 8. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2017.00903

Best, J. R., & Miller, P. H. (2010). A Developmental Perspective on Executive Function. Child Development, 81(6), 1641–1660. https://doi.org/10.1111/j.1467-8624.2010.01499.x

Diamond, A. (2013). Executive Functions. Annual Review of Psychology, 64(1), 135–168. https://doi.org/10.1146/annurev-psych-113011-143750